
Instalações Elétricas Industriais
Classificação de áreas: como proteger sua indústria do risco de explosão
Em resumo
Em indústrias que trabalham com gases, vapores, poeiras ou fibras inflamáveis e combustíveis, uma instalação elétrica convencional não é apenas insuficiente — pode ser, ela mesma, a fonte de ignição de uma explosão. É para prevenir exatamente esse cenário que existe o estudo de classificação de áreas, um dos processos técnicos mais criteriosos da engenharia elétrica industrial.
Nesta página
- O que a classificação de áreas realmente faz
- Por que essa classificação orienta todo o projeto elétrico
- As normas que sustentam o processo
- O erro mais caro: superdimensionar ou subdimensionar as zonas
- Quem precisa desse estudo
- O que o laudo entrega, além da conformidade legal
- Equipamentos EX: o que muda na prática do dia a dia
- Revisão periódica: áreas classificadas não são estáticas
- Zonas 0, 1 e 2 e Zonas 20, 21 e 22: como interpretar cada uma
- Como é feito o estudo de classificação de áreas, passo a passo
- Grupos de gás, classe de temperatura e nível de proteção do equipamento
- Tipos de proteção Ex mais usados e quando cada um faz sentido
- Montagem em área classificada: onde os erros costumam aparecer
- Inspeção e manutenção de equipamentos Ex
- Custo, prazo e contratação do estudo de classificação de áreas
- Perguntas frequentes sobre classificação de áreas
- Perguntas relacionadas

O que a classificação de áreas realmente faz
O estudo identifica e delimita as regiões de uma planta industrial onde existe, ou pode existir, atmosfera explosiva — analisando a probabilidade de formação dessas atmosferas a partir dos produtos manuseados, armazenados ou processados no local. O resultado é a definição formal de zonas de risco: Zonas 0, 1 ou 2 para atmosferas de gases e vapores inflamáveis, e Zonas 20, 21 ou 22 para atmosferas de poeiras combustíveis — cada uma indicando a frequência e a duração esperada da presença dessas substâncias no ambiente.
Por que essa classificação orienta todo o projeto elétrico
Uma vez definidas as zonas de risco, a classificação se torna a referência técnica para todo o restante do projeto: qual tipo de equipamento elétrico pode ser instalado em cada área, qual grau de proteção contra ignição é exigido, e quais métodos de proteção — como invólucros à prova de explosão ou segurança intrínseca — precisam ser adotados. Instalar equipamentos convencionais, não certificados para uso em área classificada, em uma dessas zonas é um dos erros mais graves — e mais evitáveis — que uma indústria pode cometer.
As normas que sustentam o processo
O arcabouço normativo envolve várias camadas: a NR-10, que exige que o Prontuário de Instalações Elétricas reúna as certificações dos equipamentos e materiais elétricos em áreas classificadas (item 10.2.4, alínea "f", no texto vigente até 31/05/2027; a nova redação da Portaria MTE nº 737/2026 vale a partir de 01/06/2027); a NR-20, que trata especificamente da segurança no trabalho com inflamáveis e combustíveis; e a série de normas técnicas ABNT NBR IEC 60079, que detalha, parte por parte, desde os requisitos gerais de equipamentos até o projeto, seleção e montagem de instalações elétricas em atmosferas explosivas, passando pela inspeção, manutenção e reparo desses equipamentos ao longo do tempo. Com o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) da NR-01, os riscos identificados no estudo de classificação de áreas também devem ser considerados no inventário de riscos da empresa, em vez de tratados como documentos paralelos e desconectados.
O erro mais caro: superdimensionar ou subdimensionar as zonas
Um ponto pouco discutido, mas relevante do ponto de vista financeiro, é que erros de avaliação nesse estudo custam caro nos dois sentidos. Subdimensionar o risco — classificar como área segura um local que, na prática, tem potencial de atmosfera explosiva — expõe trabalhadores e patrimônio a um risco real de acidente grave. Superdimensionar — classificar como área de alto risco um espaço que não justifica esse nível de proteção — gera investimento desnecessário em equipamentos especiais, quando uma instalação convencional já atenderia com segurança. Os dois erros têm a mesma origem: um estudo técnico feito sem o rigor e a experiência necessários.
Quem precisa desse estudo
De forma geral, qualquer indústria que manuseie, processe ou armazene substâncias inflamáveis ou combustíveis — setores químico, petroquímico, farmacêutico, alimentício, de grãos, entre outros — precisa desse laudo como parte de sua conformidade regulatória. O documento final, assinado por profissional responsável com a respectiva ART, deve incluir memoriais de cálculo para as principais fontes de risco identificadas e plantas baixas indicando claramente as áreas classificadas.
O que o laudo entrega, além da conformidade legal
Mais do que uma exigência regulatória, um laudo de classificação de áreas bem elaborado funciona como referência técnica para toda a vida útil da instalação — orientando futuras expansões, manutenções e até a resposta a incidentes. É a base sobre a qual toda decisão futura de projeto elétrico naquela área vai se apoiar.
Equipamentos EX: o que muda na prática do dia a dia
Uma vez definida a classificação de áreas, todos os equipamentos elétricos instalados nas zonas de risco — desde motores até simples luminárias — precisam ser especificamente certificados para uso em atmosfera explosiva, com marcação EX que indica o tipo de proteção adotado (invólucro à prova de explosão, segurança intrínseca, entre outros métodos previstos na série NBR IEC 60079). Substituir um equipamento EX por um convencional durante uma manutenção — por indisponibilidade momentânea do modelo certificado, por exemplo — é um erro que pode passar despercebido no curto prazo, mas que reintroduz exatamente o risco que toda a classificação de áreas existe para eliminar.
Revisão periódica: áreas classificadas não são estáticas
Mudanças no processo produtivo — um novo produto manuseado, uma alteração na quantidade armazenada de determinada substância, uma mudança de leiaute na planta — podem alterar a classificação de áreas originalmente definida. Por isso, o estudo de classificação de áreas não deveria ser tratado como um documento definitivo, elaborado uma única vez na implantação da planta, mas como algo a ser revisado sempre que uma mudança relevante no processo ocorrer, garantindo que a especificação de equipamentos continue refletindo o risco real da operação atual.
Zonas 0, 1 e 2 e Zonas 20, 21 e 22: como interpretar cada uma
A diferença entre as zonas está na probabilidade e na duração da atmosfera explosiva. Na Zona 0, a mistura inflamável está presente de forma contínua, por longos períodos ou com frequência, como no espaço interno de um tanque de solvente. Na Zona 1, ela pode se formar ocasionalmente durante a operação normal, como junto a uma boca de enchimento. Na Zona 2, não se espera atmosfera explosiva em operação normal; se ela surgir, será rara e de curta duração, como em um vazamento eventual por uma junta.
As Zonas 20, 21 e 22 seguem a mesma lógica para nuvens de poeira combustível, com um cuidado adicional: camadas de pó acumuladas sobre equipamentos, vigas e calhas podem ser levantadas e formar nuvem, ou aquecer sobre superfícies quentes até entrar em combustão. Por isso, em ambientes com poeira, limpeza e controle de acúmulo fazem parte da proteção.
Como é feito o estudo de classificação de áreas, passo a passo
- Levantamento das substâncias. Lista dos produtos inflamáveis e combustíveis, com propriedades como ponto de fulgor, limites de inflamabilidade, densidade do vapor em relação ao ar e temperatura de ignição. Para poeiras, entram também características da nuvem e da camada.
- Identificação das fontes de risco. Pontos de onde o produto pode escapar: selos de bombas, flanges, respiros, bocas de carregamento, filtros, peneiras, ensacadeiras e transportadores.
- Grau de cada fonte. A norma separa fontes de grau contínuo, primário e secundário, conforme a liberação seja permanente, esperada na operação normal ou apenas eventual.
- Avaliação da ventilação. O tipo, a eficácia e a disponibilidade da ventilação, natural ou forçada, influenciam diretamente o tipo e a extensão de cada zona.
- Definição das zonas e de suas extensões. Feita com base nas etapas anteriores, em memoriais de cálculo e nos critérios da norma e de códigos setoriais aplicáveis.
- Documentação. Plantas e cortes com as zonas desenhadas, memorial descritivo, lista de fontes de risco e dados das substâncias, com ART do responsável técnico.
A série ABNT NBR IEC 60079 tem partes específicas para classificação com gases e vapores e com poeiras; uma planta com os dois riscos precisa avaliar ambos.
Grupos de gás, classe de temperatura e nível de proteção do equipamento
Saber a zona não basta para escolher o equipamento. A especificação também considera o grupo da substância e a temperatura máxima de superfície permitida. Gases e vapores são divididos nos grupos IIA, IIB e IIC, do menos para o mais exigente quanto à facilidade de ignição. Poeiras têm grupos próprios, IIIA, IIIB e IIIC, que separam fibras combustíveis, poeiras não condutivas e poeiras condutivas.
A classe de temperatura, de T1 a T6, indica a temperatura máxima que a superfície do equipamento pode atingir, que precisa ficar abaixo da temperatura de ignição da substância presente. Já o nível de proteção do equipamento (EPL) indica para qual zona ele é adequado: Ga, Gb e Gc para gases, correspondendo às Zonas 0, 1 e 2, e Da, Db e Dc para poeiras, correspondendo às Zonas 20, 21 e 22. Nível de proteção certo com grupo ou classe de temperatura errados continua sendo risco.
Tipos de proteção Ex mais usados e quando cada um faz sentido
- À prova de explosão (Ex d). O invólucro suporta uma explosão interna e impede que ela se propague para fora. Comum em motores, painéis e caixas de ligação. Exige cuidado com juntas, parafusos e prensa-cabos.
- Segurança aumentada (Ex e). Medidas construtivas evitam arcos, centelhas e temperaturas excessivas. Comum em caixas de terminais e luminárias.
- Segurança intrínseca (Ex i). Limita a energia do circuito a um nível incapaz de provocar ignição. Muito usada em instrumentação, com barreiras ou isoladores e separação rigorosa dos cabos.
- Pressurização (Ex p). O invólucro é mantido com pressão positiva de ar limpo ou gás inerte, impedindo a entrada da atmosfera externa. Usada em painéis e analisadores.
- Proteção por invólucro para poeiras (Ex t). Combina vedação contra a entrada de pó e limitação da temperatura de superfície.
A escolha depende da zona, do tipo de equipamento, da capacidade de manutenção da equipe e do custo ao longo da vida útil, não só do preço de compra.
No Brasil, equipamentos elétricos para atmosferas explosivas estão sujeitos à certificação compulsória no âmbito do Inmetro, e a marcação do equipamento traz o tipo de proteção, o grupo, a classe de temperatura e o nível de proteção. Na compra, confira se o certificado está válido e corresponde ao modelo entregue. Os certificados devem ser arquivados, porque fazem parte da documentação que a NR-10 exige para instalações em áreas classificadas.
Montagem em área classificada: onde os erros costumam aparecer
Equipamento certificado mal instalado perde a proteção. Os problemas mais comuns encontrados em campo são:
- Prensa-cabos sem certificação ou incompatível com o tipo e o diâmetro do cabo.
- Furos abertos em campo em invólucros à prova de explosão.
- Tampas com parafusos faltando, juntas pintadas, riscadas ou com vedação improvisada.
- Unidades seladoras de eletroduto sem o preenchimento correto.
- Circuitos de segurança intrínseca misturados a circuitos comuns na mesma bandeja, sem separação.
- Aterramento e equipotencialização incompletos, que permitem centelhas por eletricidade estática em tanques, tubulações e estruturas.
Inspeção e manutenção de equipamentos Ex
A série NBR IEC 60079 tem parte específica para inspeção e manutenção, com inspeção inicial, antes da energização, e inspeções periódicas ao longo da operação, em diferentes graus de detalhe, do exame visual à inspeção detalhada com abertura do equipamento. O intervalo deve ser definido em função das condições do ambiente, como corrosão, vibração e poeira, e do histórico de falhas encontradas. Qualquer intervenção, mesmo a troca de uma lâmpada, pede permissão de trabalho e avaliação prévia da atmosfera. Reparos em equipamentos Ex seguem regras próprias e devem ser feitos por oficina qualificada, para não comprometer a certificação. Quem executa esse trabalho precisa de conhecimento específico: a nova redação da NR-10, aprovada pela Portaria MTE nº 737/2026 e em vigor a partir de 01/06/2027, cria um treinamento complementar de área classificada, com carga mínima de 16 horas, além do treinamento básico.
Custo, prazo e contratação do estudo de classificação de áreas
Não existe valor padrão. O custo e o prazo dependem do número de substâncias e de fontes de risco, do tamanho da planta, da existência de plantas atualizadas e das fichas de dados de segurança dos produtos, e da necessidade de levantamento em campo. Considere também o custo da adequação que vem depois, que costuma pesar mais que o próprio estudo.
O que conferir na proposta do estudo
- O escopo cobre gases e vapores, poeiras ou ambos, conforme os produtos da planta?
- Inclui visita técnica e levantamento das fontes em campo?
- Serão entregues memoriais de cálculo, plantas e cortes com as zonas e a lista de fontes?
- O documento indica grupo e classe de temperatura exigidos em cada área?
- Há ART do responsável?
Perguntas frequentes sobre classificação de áreas
Toda indústria com produto inflamável precisa de classificação de áreas?
Toda instalação onde possa se formar atmosfera explosiva precisa avaliar esse risco. O estudo é o documento que define onde isso acontece e com que probabilidade; em alguns casos, ele conclui que a área não é classificada.
Qual a diferença entre Zona 1 e Zona 2?
Na Zona 1, a atmosfera explosiva pode ocorrer na operação normal. Na Zona 2, ela não é esperada na operação normal e, se ocorrer, dura pouco. A diferença muda o nível de proteção exigido dos equipamentos.
Posso usar um equipamento comum se ele ficar dentro de um painel fechado?
Não. Um painel comum não impede a entrada da atmosfera explosiva. Só soluções certificadas, como invólucro à prova de explosão ou pressurização, permitem abrigar componentes comuns em área classificada.
De quanto em quanto tempo o estudo deve ser revisado?
Sempre que houver mudança de processo, de produto, de quantidade armazenada, de ventilação ou de leiaute. Sem mudanças, recomenda-se ao menos conferir periodicamente se o estudo ainda reflete a operação real.
Normas citadas neste guia
Fontes oficiais
Sua indústria manipula substâncias inflamáveis ou combustíveis?
A VBE Engenharia executa e adequa instalações elétricas em áreas classificadas a partir do estudo de classificação. Solicite um Diagnóstico Técnico.
Eng. Vinicius Esteves Brisolla de Barros
Engenheiro responsável técnico e diretor · CREA 5068941862
Revisado pela engenharia da VBE em . Conteúdo informativo: cada instalação exige análise e projeto por profissional habilitado.


