Com o crescimento acelerado da frota elétrica no Brasil, montar um eletroposto comercial deixou de ser nicho para se tornar uma oportunidade de negócio concreta — para postos de combustível, shoppings, supermercados, hotéis e empresas com estacionamento próprio. Mas, como qualquer investimento em infraestrutura elétrica, o resultado depende de decisões técnicas tomadas antes da primeira máquina ser instalada.
O primeiro passo: entender o marco regulatório
A boa notícia para quem quer empreender no setor é que a regulamentação brasileira já desburocratizou o processo. A Resolução Normativa da ANEEL (RN nº 819/2018, atualizada pela RN nº 1.000/2021) permite que qualquer pessoa jurídica — empresa, condomínio, posto de combustível — comercialize energia elétrica destinada à recarga de veículos, sem necessidade de concessão, permissão ou autorização específica da ANEEL. Isso não significa ausência de regras técnicas: qualquer solicitação de fornecimento inicial ou aumento de carga precisa ser formalmente comunicada à distribuidora local.
Escolhendo o tipo de carregador certo para o seu público
Essa é a decisão que mais impacta tanto o investimento inicial quanto o modelo de negócio:
- Carregadores AC (7 a 22 kW) são indicados para locais de longa permanência — estacionamentos de shoppings, supermercados, empresas, hotéis — onde o cliente permanece de 2 a 8 horas. O investimento por equipamento é menor, e a infraestrutura elétrica exigida também.
- Carregadores DC (50 kW ou mais, chegando a 350 kW nos ultrarrápidos) são voltados para alta rotatividade — rodovias, postos de combustível, centros de serviço rápido — entregando boa parte da autonomia em 15 a 40 minutos. O equipamento é significativamente mais caro (entre R$ 50 mil e R$ 200 mil por unidade) e exige uma estrutura elétrica robusta, muitas vezes com necessidade de transformador dedicado.
Faixas de investimento de referência
Somando equipamento, adequação da rede elétrica local, projeto técnico, licenciamento, software de gestão e instalação, o investimento total varia amplamente: um ponto simples com foco em carregadores AC pode ser viabilizado a partir de R$ 50 mil; projetos maiores, com carregadores DC rápidos e infraestrutura robusta, costumam ficar entre R$ 90 mil e R$ 500 mil, podendo ultrapassar esse valor em estações com múltiplos pontos ultrarrápidos. A adequação da rede elétrica local — que pode envolver reforço de transformador — sozinha costuma variar entre R$ 10 mil e R$ 100 mil, dependendo da capacidade já disponível no ponto de conexão.
As normas técnicas que sustentam o projeto
Dois documentos técnicos são a espinha dorsal de qualquer eletroposto: a NBR 5410 (instalações elétricas de baixa tensão em geral) e a NBR 17019 (requisitos específicos para alimentação de veículos elétricos). Juntas, elas definem o dimensionamento de cabos, disjuntores, dispositivos de proteção (DR, DPS) e aterramento — tudo com projeto assinado por engenheiro eletricista habilitado, com ART. Além disso, os carregadores adquiridos precisam ser certificados e homologados pelo INMETRO, garantindo a precisão da medição e a segurança dos equipamentos.
Software de gestão: a metade invisível do negócio
Hardware é só parte da solução. Um eletroposto comercial depende de um sistema de gestão (operado por um CPO — Charge Point Operator) que viabilize cobrança via app ou QR Code, monitoramento remoto do status de cada ponto (livre, ocupado, em falha) e geração de relatórios de consumo — dados essenciais para calcular o retorno real do investimento e ajustar a estratégia de precificação.
Retorno esperado e fatores que aceleram o payback
O prazo médio de retorno para um eletroposto bem posicionado costuma variar entre 18 e 60 meses, dependendo da localização, do modelo de cobrança (por kWh ou por tempo de uso) e da capacidade de gerar receitas complementares — parcerias comerciais com estabelecimentos do entorno, ou serviços adicionais que aumentam o tempo de permanência do cliente no local. Localização estratégica, com bom fluxo de veículos e fácil acesso, segue sendo a variável que mais influencia o retorno.
Parcerias comerciais como estratégia de viabilidade
Um eletroposto raramente é rentável apenas pela venda direta de energia, especialmente nos primeiros anos de operação, enquanto a frota elétrica local ainda está em crescimento. Parcerias com estabelecimentos do entorno — supermercados, shoppings, redes de fast-food — que se beneficiam do tempo de permanência do cliente durante a recarga costumam ser parte relevante da estratégia de viabilidade financeira, tanto por meio de acordos de receita compartilhada quanto pelo simples aumento de fluxo de clientes que a presença do eletroposto gera para o estabelecimento parceiro.
Localização: a variável que mais pesa no resultado final
Entre todas as decisões de um projeto de eletroposto, a escolha da localização costuma ser a que mais influencia o retorno financeiro — mais até do que a escolha entre carregadores AC ou DC. Um ponto de recarga bem posicionado, com boa visibilidade, fácil acesso e fluxo real de veículos elétricos na região, pode ter retorno significativamente mais rápido do que um ponto tecnicamente idêntico instalado em local de baixo fluxo. Por isso, um estudo de viabilidade completo deveria sempre incluir uma análise honesta da demanda local — não apenas do custo de instalação.
Escalabilidade: projetar para o crescimento da frota, não apenas para hoje
A frota de veículos elétricos no Brasil está em trajetória de crescimento consistente, o que significa que um eletroposto dimensionado apenas para a demanda atual pode se tornar insuficiente em poucos anos. Prever, já no projeto inicial, a possibilidade de expansão — seja em número de pontos, seja em potência disponível — evita que o empreendedor precise refazer parte da infraestrutura elétrica pouco tempo depois da inauguração, quando a demanda real superar a capacidade originalmente instalada.
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